Lançamento In Fine em Fortaleza

Dia 31 de março acontece em Fortaleza, minha querida cidade natal, o lançamento do meu segundo livro de contos, intitulado In Fine.

Será no Vila Mosquito, uma pizzaria e restô localizada no bairro do Meireles.

Estarei recebendo o povo a partir das 18h.

Além do In Fine, estrão à venda também meus outros dois livros: Do Escuro E Depois (contos, 2012) e Estradas (poesia, 2014).

Vamos lá brindar comigo?

Espero todos por lá.

 

Mais informações em www.coletivosupernova.com.br 

Lançamento de In Fine no Le Vin

Na próxima semana, dia 8 de dezembro de 2015, lanço meu terceiro livro, intitulado In Fine.

Feito em parceria com o amigo Rogério Bessa, arquiteto e ilustrador, In Fine é o segundo livro de contos que me meto a fazer. O primeiro foi Do Escuro e Depois, lançado em 2012.

A festa será no Le Vin, um bistrô bem interessante localizado nos Jardins, bairro icônico de SP. O lugar foi escolhido pelo Rogério, pois todas as ilustrações foram feitas nas mesas do Le Vin, nos sábados de maio a outubro desse ano. É praticamente seu atelier...

A partir das 19h30 estaremos por lá pra receber os amigos.

Além do livro, que custa trinta reais, os originais das ilustrações também estarão à venda (seiscentos reais cada quadro).

Espero todos por lá!!

 

 

 
 

Inânima

Compreendo a maciez áspera dos automóveis

na infeliz solidão dos pátios das fábricas,

parados, ao sol, enfileirados,

olhando pra lugar nenhum,

dia após dia.

 

Sinto a frieza do metal amarelo,

duro, sujo, desbotado,

nas noites escuras das construções,

onde tratores imóveis

com pneus gigantes ou brutas esteiras de aço

descansam sob o orvalho.

 

Sofro com a inércia dos guindastes,

paralisados, altos, nos canteiros,

sustentando seu peso inútil,

enfeitando os céus das grandes cidades.

 

Estremeço com a visão angustiada

(lento passear do olho assustado)

das composições cartesianas

dos contêineres empilhados,

grandes legos coloridos,

nos depósitos da beira do mar.

 
 

In Fine - Z

-       Parte verso boca sangue suga sangue leque mexe volta seco bota leve meta ovni lago.

-       Sopa mole sede fode mete entope saco venta queixo dedo boca fixo dente quente frio morno gelo medo ode preto.

-       Morda babe baba cosmos disco cisco fonte septo rapto.

-       Capte.

-       Opte.

-       Sonda merda foda corda finda vinda índio taco naco oca toca mídia seda fauna verde.

-       Vede.

-       Sente toca pega morde baba come lambe mija coisa caga cria peida queda sofre chora grita berra.

-       Onda limpo belo nojo sombra sexo.

-       Paga.

-       Usa.

-       Pega.

-       Amassa.

-       Doido.

-       Chuta liso lindo crava tonto seixo onça branco trompa moda grossa tromba peixe fogo lado mimo frito bambo horto reto.

-       Torto soco fraco forte jeito.

-       Venta queixo dente.

-       Língua.

-       Osso.

-       Morte?

-       Zênite.

 

 

 

Sobre o conto anterior...

Tema: Xipócue

Título: Sensatez

 
 

In Fine - X

Passava lentamente rasgando as verdes ondas. De onde eu estava podia notar que aquele cargueiro estava paralelo à costa. Não me arrisco a dizer a que distância se encontrava, mas sei que era uma distância confortável de se ver. A distância dos navios mesmo. Pois ele vinha devagar. Devagar para os meus olhos. E estava perto de se chocar contra um obstáculo muito grande que meus olhos viam. Ele foi chegando e foi chegando com aquela agonia do minuto que nunca passa e já num instante passou. O navio foi sumindo dentro do prédio. Sua proa entrou pela janela e ele foi sumindo. De onde eu estava podia, às vezes, ver as suas chaminés entre as garrafas do bar, outras vezes ver seu casco negro surgindo entre o sofá e as cadeiras. Houve um momento em que foi possível vê-lo inteiro sobre o tapete da sala. Depois disso foram alguns minutos de apreensão, pois ele desapareceu cozinha adentro. Nervosamente fiquei imaginando sua perigosa passagem no estreito entre o fogão e a geladeira. Mas eis que ele surge triunfante do outro lado, na área de serviço, e se prepara para deixar o prédio. Podia jurar que ouvia o som de sua sirene anunciando a partida. Toda a travessia não durou mais que quinze minutos, mas pareceu uma eternidade. Fiquei contemplando aquele enorme cargueiro por mais algum tempo, até que ele saísse do meu campo de visão. Fechei os olhos e comecei a meditar. Então o som de uma sirene muito alta me tirou do transe. Pensei no navio que se tinha ido e o procurei no horizonte em vão. Virei a cabeça bem devagar para o lado esquerdo e da janela da cozinha pude ver a enorme proa de um encouraçado da segunda guerra, que dentro de segundos entraria no meu prédio e passaria bem por cima da minha cabeça. Então inexplicavelmente fiquei muito feliz, quase eufórico. Não tentei fugir nem perdi o controle. Apenas pensei que o fantasma nunca poderia me machucar.

 

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Tema: Viagem

Título: Voo Cego

 
 

In Fine - V

Nada.

Simplesmente nada.

Deitado, com a rede a balançar, olho o teto negro da escuridão que deixa passar apenas fiapos de luz por entre algumas telhas soltas. E no pensamento somente aquela situação. Aparentemente é tudo muito simples de ser resolvido e ao mesmo tempo o inferno. E são enormes as labaredas que me consomem. Continuo balançando e lembrando de sua voz quase rouca ao telefone. Consegui enxergar toda a descrição como se ela estivesse aqui bem na minha frente. E ouvia os seus suspiros e sua respiração. Podia ver. Via de verdade.

Do outro lado algo tão realmente palpável e de tal forma real e tão intenso e tão natural e tão grande que não sei mais o que mais me sufoca. Só posso mesmo continuar o balanço dessa rede com esse teto negro como écran. Esse teto me persegue há muitos anos, ou quem sabe sou eu quem o persigo. Ele é meu guia e meu termômetro. Tudo está em paz então eu deito e durmo ignorando sua presença. Algo vai mal ou bom demais então passo horas a fitá-lo. Sempre na escuridão. Não sei nem como ele é às claras. O teto negro também não me conhece à luz do dia. Mas na verdade eu não me importo nem ele.

O fato é que continuo aqui e uma sensação incômoda e prazerosa me invade. Tenho vontade de chorar e de sair às ruas gritando pra todos. Quero gritar até não ter mais voz. Gritar tão alto de forma que não possa mais ouvir meus pensamentos. Queria correr pelas estradas desertas fugindo de todos os lados, de todas as vozes roucas, de todos os corpos, de todas as bocas, de tantos abraços, de tanto carinho, de tanto amor. Queria realmente me transformar em fumaça pra que não precisasse dizer, “estou aqui, não estou lá”.

No entanto, caros ouvintes da “Rádio Razão”, nada posso fazer a não ser balançar essa maldita rede olhando esse maldito teto e exercitar cruelmente meu exacerbado egoísmo, meu cinismo incomensurável, minha tranqüilidade irritante e, por que não, meu irresistível charme.

Farei isso. Ainda que contra a vontade.

Continua nada e nada continuará.

 

 

 

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Tema: Universo

Título: Escuro

 
 

In Fine - U

Havia muitas luzes. Muitas pessoas. Vontade de mijar. Conversas fora de meu propósito. De minha convicção. Então fui ao banheiro. Muita escuridão. Havia um interruptor e eu tentei acioná-lo. Mas não havia energia. Então entrei no banheiro. Era tão escuro que fiquei inteiramente cego. Busquei a primeira porta presente ao meu tato, pois já estava praticamente rastejando. Achei um lugar onde havia uma privada. A necessidade de mijar crescia e eu estava pouco preocupado com o que se passava ao meu redor. Mijei. Tudo escuro. Consegui distinguir azulejos que deviam ser brancos, o reboco acima dos azulejos, as encanações do vaso. Tudo. Pensei. "A cegueira não é tão ruim". Ao sair do cubículo tropecei em um inesperado batente. Caí de cara na cerâmica, contrariado. Levantei. Tentei reconhecer a outra sala, ainda me achando cego. Tateei uma sala cheia de chuveiros e pias, tropeçando em alguns batentes. Saí desta saleta.

Por alguns momentos fiquei me acostumando à pouca luz do ambiente. Uma pequena fresta no telhado até me dava esperanças para isso.

Dentro de alguns instantes vi duas pequenas luzes no fim da sala. Resolvi conferi-las de perto. Comecei a andar. Dei alguns passos, uns quatro ou cinco, e dei de cara com a parede, causando extrema dor no meu nariz e nos meus joelhos. Só então percebi que as luzes que via estavam refletidas no azulejo. Senti-me um idiota. Eram duas velas, dessas de sete dias, só que bem pequenas. Estavam ambas acesas. Acocorei-me. Olhei pra elas. Passei muito tempo olhando-as. Molhei dois dedos na boca e apaguei uma delas. Meus dedos ficaram cheios de cera. Passei algum tempo em silêncio. Desabei a rir, em descontrole, feliz por ter agravado o escuro. Mas não estava satisfeito. Havia a outra vela. Molhei de novo os dedos. Apaguei a outra vela. Aflorara outro riso incontrolável. A escuridão plena.

Então saí do banheiro. Revi meus amigos e alguém me puxou violentamente.

"Me larga"

Eu só queria apagar velas e causar escuridão.

 

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Tema: Tempo

Título: O Relógio da Foto

 
 

In Fine - T

Queria muito fumar um cigarro. Naquele momento era impossível. Não me lembro o motivo. Estava sentado na cama, havia tirado os sapatos e as meias, e massageava os pés calmamente. Por trás de mim a janela aberta. Havia aquele silêncio e aquele paz que de vez em quando nos surpreende, tão acostumados que somos com a confusão. Ela entrava e saia do quarto, não me lembro o que estava fazendo. Ás vezes se aproximava e me beijava a boca ternamente. Perguntava algo e voltava a sair. Ela também sentia a mesma paz. Na parede à minha frente estava o pequeno relógio de ponteiros e uma foto emoldurada. Aquela composição sempre esteve lá, pelo menos há um ano, que foi quando fomos àquela praia e fizemos a tal foto. Eu abraçado a ela em frente a uma lojinha de artesanato. Bermuda jeans, camiseta branca, sandálias, os cabelos em revolta e uma cara de bêbado. Isso era eu. Ela estava linda com um vestido branco e os longos cabelos emoldurando um belo sorriso. É fácil ser mais ou menos bonito quando se tem vinte e poucos anos. As preocupações são menores. A vida é mais tranqüila. Pois a foto estava lá há mais de um ano, ao lado do relógio de ponteiros, e eu nunca tinha notado a harmonia da composição. Levantei da cama e caminhei até a parede para examinar mais de perto. Estava tudo no mesmo lugar mas parecia diferente. Passei algum tempo admirando aquela foto. Gostei muito daquela viagem. Foi na época da passagem de ano. Nos divertimos bastante, eu e ela. Olhava a foto com saudade quando notei algo de estranho. Na verdade não era estranho, apenas era um detalhe que nunca tinha percebido. No fundo da loja, no canto superior esquerdo da foto havia um relógio igual ao que havia na parede ao lado da foto. E o mais interessante é que naquele momento eles estavam marcando a mesma hora. Olhei pro relógio da foto, depois olhei para o da parede e tornei a olhar para o da foto. Então uma mão pousa sobre o meu ombro. Pensei que fosse ela mas quando virei o rosto dei de cara com um rapaz alto, barbado, cabelos longos e que tinha o sorriso familiar.

“Olhando o que aí, velho?”

Não sabia quem era aquele rapaz dentro da minha casa, mas os seus olhos me passavam uma certa calma. Fiquei calado um tempo olhando pra ele, que também me olhava e me sorria. Desviei os olhos pra parede e me pareceu que a foto estava um pouco amarelada. Ao procurar o relógio da parede vi que havia um grande relógio digital muito estranho. A hora era a mesma do relógio da foto.

Nesse momento comecei a ficar nervoso e ao me virar em direção à janela vi que o quarto estava completamente diferente. Havia um espelho em uma das paredes e eu pude ver a cara de bobo de um senhor de cabelos brancos, que era eu. Olhei pro rapaz e perguntei, quase aos prantos, o que estava acontecendo.

“Eu é que pergunto, pai. Tá pirando?”

Sentei na cama e fiquei a contemplar aquele rapaz, que devia ter seus vinte e cinco anos, que se dizia meu filho. Olhei pra ele e quase me vi, na mesma época da foto. Levantei e caminhei até a parede do relógio. Meu filho me seguia sem entender. Cheguei perto da foto. Olhei fixamente. Primeiro a foto, depois o relógio, depois ele.

“Eu já lhe contei a história dessa foto?”

“Que é isso, pai?? Umas trezentas vezes, mais ou menos. Isso sem falar da mamãe.”

“A mamãe?”

“É, pai, a mamãe. Lembra dela não??”

“Respeito com seu pai.”

Realmente já conhecia aquele rapaz. Era mesmo meu filho. Mas algo estava errado. Eu me esqueci de vinte e tantos anos da minha vida ou então estou tendo saudades de algo que ainda não veio.

“Mas eu já lhe falei sobre a curiosidade dessa foto?”

“Qual curiosidade? A cara de bêbado ou o joelho arranhado da mamãe?”

“Nenhuma das duas. É sobre o relógio.”

“Que relógio?”

“Esse aqui no canto superior esquerdo.”

“E o que é que tem esse relógio.”

“É que antes desse aí digital que está na parede, aí do lado, havia um que era igual ao da foto, e eu só notei muito tempo depois, aliás, eu notei hoje, alguns minutos atrás.”

Olhei pro digital e ele estava marcando a mesma hora do relógio da foto. Pensei que ele pudesse estar errado. Virei o rosto para lhe perguntar e quem estava lá era ela.

“Faz cinco minutos que eu te chamo aqui no pé do teu ouvido e você aí olhando pra essa foto. Aconteceu alguma coisa?”

“Nada, depois te conto.”

“O jantar tá na mesa.”

“Já vou já.”

Passei mais um tempo olhando a foto, o relógio da parede e o relógio da foto. Estava feliz e aquela paz tinha aumentado. Eu me sentia leve.

“Amor?”

“Que é?”

“Vamos ter um filho homem.”

“Eu prefiro mulher.”

“Mas eu tenho certeza que vai ser homem. E a cara do pai.”

 

 

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Tema: Sala

Título: Eu-castelo

 
 

In Fine - S

O paraíso é uma vertigem. Eu tô no osso. Você precisa voltar aqui. Tanto tempo, pouco tempo. Não há nada aqui, só essa inquietação. Uma folha em branco. Quando em ti vi a solução dos meus problemas... Não minto, só escrevo o que sinto. Quando O vi pela primeira vez? Lascivo, pretty piece of flesh. Eu te amo, nêgo.

No meio da construção caótica, me perco no seu jardim que parece água, e há pessoas escondidas em suas janelas altas. Talvez exista uma porta que não consigo enxergar. Com certeza há pessoas das quais preciso. Talvez elas morem aqui, talvez estejam presas neste castelo de pedras amarradas, talvez sejam esses guardiões que vigiam dia e noite a entrada da fortaleza.

No seu jardim só vejo o preto. Só existe a escuridão. E o limbo o cerca por todos os lados, fazendo parecer que há sempre uma tempestade amadurecendo por cima dos seus telhados, e que a qualquer momento o céu pode desabar numa torrente de água, granizo e eletricidade.

Algo me diz que falta alguma coisa. Parece que a obra prima do arquiteto ainda não foi concluída. No entanto a falta de determinados elementos, ao contrário de desmerecer a construção, a tornam muito mais verdadeira e sombria, de forma que podemos sentir o vazio de seus espaços negros e a plenitude de suas formas altas.

O que será que há por trás dele?

 

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Tema: Realidade

Título: (Ir)Real

 
 

In Fine - R

Não é necessário descrever a sensação. É só sentir o vento no rosto, o vento marinho salgado e cheio de mistérios. É só pensar naquela fêmea, na mulher que deve ser lembrada. E então o resto é o gosto da bebida e o calor das palavras. Às vezes palavras mudas que daqui a quinze minutos de nada valerão, mas no momento são palavras mágicas (as palavras são tão mágicas que muitas vezes não há nada sobre o que se falar e, no entanto, de repente, a partir de um simples artigo, ou um advérbio, discorre-se sobre toda a história do universo). Depois das palavras e dos pensamentos e da bebida e do vento cheio de sal olha-se no olho. Pode ser o seu próprio. É até mais educativo, mais interessante e instigador. Só é mais doloroso. Quase sempre vê-se coisas que não se quer ver. Vê-se coisas que já foram vistas e ignoradas. Às vezes não se vê nada, e essa é a pior situação. E então olha-se para o mar, observa-se os navios, as pedras do espigão, as ondas e a espuma branca e as pessoas andando na praia cada vez mais desfocadas e distorcidas, filtradas por aquela insistente lágrima que sempre cisma em cair. E o choro é necessário, mais necessário do que descrever todas essas sensações. Tudo se traduz. Tudo se explica. O poder da água que despenca dos olhos. O poder do rosto crispado que nem o mais insensível dos humanos é capaz de controlar. E aí o cérebro é povoado por mortes e flagelações, e pelas inúteis tentativas de se sentir pena de si mesmo. Nunca há pena. Há ódio, que pena. A ira é sempre e sempre será mais forte. E então só restam o álcool e o medo. O medo eterno da lucidez. O pavor de ter a consciência de que os pés estão no chão. O medo demoníaco de se ouvir determinada voz ou determinada melodia. E todos esses medos são mesmo determinados e causam caminhos irreversíveis e agradáveis. Agradabilíssimos. Prazerosos a tal ponto, praticamente indispensáveis, que chega-se a criar realidades para que eles passem a existir, de forma que tudo que é quase irreal passe a se tornar quase real. E desse modo o ciclo da ilusão se perpetua, até o fim dos tempos, até enquanto existam as palavras.

 

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Tema: Queda

Título: O Poço Do Elevador

 
 

In Fine - Q

De repente ela disse que eu era um idiota. Apenas mostrei-lhe aquele sorriso de enterro, vesti minha roupa e saí. Apesar dos onze anos juntos e dos milhares de péssimos adjetivos com os quais ela me elogiava, nunca tinha me chamado de idiota. Idiota eu não aguento pois não o sou. Posso ser qualquer coisa, menos idiota.

Era e sempre será lindo o amor entre nós dois, mesmo agora depois do idiota. Nunca mais a vi nem quero ver. Acho que deve fazer uns dois anos. Nunca mais a procurei. Nem ela. Viajei pra muito longe, longe mesmo. Esqueci a família e os amigos e ela. Mentira. Dela eu nunca esqueci. Tive vontade de voltar, mas o orgulho era grande. Ninguém me chama de idiota assim e pronto.

A verdade é que estou aqui murmurando pensamentos pra mim mesmo. São pensamentos sem sentido. As paredes do meu quarto são brancas e muito macias. Adoro essas paredes. Eu mesmo as fabriquei. Dias e dias e noites sem dormir até as paredes do meu quarto ficarem prontas. Hoje minha vida é perfeita e não preciso de ninguém me chamando de idiota.

Eu a amo ainda, não posso negar. Mas idiota foi demais. Como já disse, vesti a roupa e saí. Só que antes de sair pude ver o seu corpo desabando pelo chão e o seu olho esquerdo sangrando com a minha caneta dentro dele. Mas não dei importância a isso. Estava com raiva mesmo era do maldito idiota de que fui chamado. Foi uma terrível injustiça que ela fez comigo. Canalha, safado, egoísta, sádico, violento, animal, desumano, cruel, brocha, sacana, traidor, insensível. Tudo bem, eu não reclamo. Mas idiota eu não sou, e nem admito que me chamem, principalmente ela que amava e amo tanto.

Depois que ela caiu no chão ensangüentada e se debatendo eu desci. No caminho deu vontade de voltar. Então parei o elevador alguns andares antes do térreo. Subi de volta pela escada. Entrei no apartamento e a possuí como nunca tinha feito antes. Confesso que os olhos estavam meio estranhos, mas isso não chegou a atrapalhar. Nitidamente ouvia sua voz rouca me chamando de idiota. Não pude agüentar aquilo. Subi as escadas com ela nas costas. Um rastro de sangue ficou pelos degraus. Fui até o último andar. Subimos para o telhado, e ficamos olhando a vista por alguns minutos. Seu olhar estava meio vago, mas parecia satisfeita.

Depois nunca mais a vi. Estou morando tranqüilo no meu quarto de paredes brancas e macias e de vez em quando sonho com os seus olhos, um aberto e o outro vermelho, me fitando com raiva e me chamando de idiota. Sempre a vejo no mesmo lugar. Acho que ela gosta de morar no poço do elevador.

 

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Tema: Palavra

Título: Palavras

 
 

In Fine - P

Começa por um frio no estômago. Um vazio. Aí a cerveja. Cachaça é melhor. Mais barata e mais forte. Depois o olho. Fundo, brilhante e vazio. A mão treme. Os fatos, acontecimentos vão se sucedendo. Rápidos. Sem definição. Loucura. A bebida vai sumindo, seja ela qual for. Tempo. Minutos, horas. Aí então as palavras vão aparecendo. Animais ariscos com medo de carinho. Querem me morder. Sinto. Agora veio tudo de uma vez. A caneta. Onde. Carvão, giz, sangue. E o papel. Não há papel. Vamos ao banheiro. Talvez lá. Não há nada no banheiro a não ser fezes e odores horríveis. Que bom. Isso dá em algo. Procuro na carteira faturas velhas do cartão de crédito há muito perdido por conta das garrafas de cerveja do início. Ou dos litros e litros de aguardente. Não há nada. Tudo está perdido. Calma. Guardanapos, por favor. Muitos. Milhares deles. Ainda vai sobrar pra fechar um, diria um amigo meu. E as palavras. Sumiram? Só adormecidas. Já já acordarão. Mais álcool. E o olho vazio ao redor. Registros. Um ônibus, vários ônibus, um cachorro, homens, mulheres, bêbados, mesas, cadeiras, copos, estudantes, vadios, meninos, placas. Tudo informação. É preciso parir. Lembranças. Impressões. Alguém vai ao mesmo banheiro. Caretas. Odor terrível. Que bom. Falarei deste banheiro. Um banheiro de bar a trinta metros do cruzamento. Olho. Do verbo olhar. Vesgo. Meu olho. É ela. Lá vem ela. Preciso esconder isso. Amanhã chego ao fim. As palavras esperarão. Por enquanto é voz. Mais um parto adiado. Feliz por ser assim. Palavras.

 

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Tema: Onda

Título: O Elogio de Regina

 
 

In Fine - O

O fundo do mar não é tão azul assim. À medida que se vai afundando tudo vai ficando escuro. E dá medo, bastante medo. Os corais, as algas, os peixes, tubarões, seres estranhos, navios afundados, pedras, areia, conchas com coisas dentro, conchas que andam, tudo é medo. E ele afundava rápido, olhando tudo ao redor. Os olhos esbugalhados, queimando com o sal. As bochechas cheias de ar, o peito estufado, lutando pela vida. Braços e pernas num bailado louco na guerra contra a correnteza que o arrastava para o fundo. Lá de baixo podia ver a vela branca triangular caída na superfície da água. Não via seus amigos. Talvez estivessem mortos. Rezou para não se deparar com eles. Podiam também estar vivos, chorando sua morte. Mas ele ainda estava vivo. A tempestade chegou sem avisar. Na madrugada anterior ele estudara o céu, e podia garantir que a pesca seria boa. O tempo estava bom. O mar com o seu verde nordestino característico. Verdes mares bravios... Trinta anos de experiência. Uma vida dentro do mar. Três, quatro dias sem pisar em terra, comendo peixe torrado, bebendo cachaça e fumando maconha. E a jangada voltava sempre cheia de peixes. Alimentava a família e dava um bom dinheiro na venda para os turistas. Naquele dia enfrentou a arrebentação confiante. Regina havia sido reformada. Ganhou até pintura nova. Verde e azul. As cores do mar. A cor do céu. E o nome na popa num branco brilhante. Regina. Em minutos já estava lá dentro. O céu começava a se tingir de vermelho, anunciando a chegada do sol. Seria uma fartura de peixes. E foi. Só que depois do meio-dia o tempo virou. A escuridão começou a tomar conta do oceano. O céu ia desabar. Rumo de volta, rápido. Mas não deu tempo. A chuva começou e era forte. Os pingos doíam nas suas costas morenas. O baseado apagou. A garrafa de pinga caiu no mar. Não havia mais peixe torrado. Regina subia e descia, tal como a puta que lhe deu o nome em tempos já esquecidos. Subia e descia e o deixava zonzo. As ondas cresceram rápido. O mar revoltou-se contra os jangadeiros. O primeiro foi à água. Seu grito ficou pela metade. Em pouco tempo foi ele a cair. Também ouviu o grito do amigo pela metade. O único som era o da chuva batendo na água salgada. As borbulhas que ouvia estavam apenas dentro de sua cabeça. Junto das bolhas a morte. Ela nadava ágil ao seu redor. Peito estufado, bochechas cheias de ar numa careta horrível. Ia afundando e perdendo a esperança. Sim, porque as forças físicas já havia perdido. Restava apenas a fé, que também já se ia. Sentiu pedras nos seus pés. Olhou pro alto e as forças retornaram. Deu um grande, o maior impulso com as pernas e se balançou todo como um siri na água quente. Chegou à superfície e respirou todo o ar de todo o mundo. Estava verde como o mar. A morte chorava lá no fundo e ele riu dela. Chovia forte ainda, e as ondas continuavam grandes demais. Não via Regina. Ficou ali muito tempo, boiando, tirando força da vontade que tinha de continuar vivo. O tempo abriu, o sol apareceu. Olhou pra ele e buscou orientação. Achou o rumo e nadou. Depois de tempo avistou Regina. Não estava virada, mas o mastro havia quebrado. Parecia descansar da batalha com as ondas, tal como aquela puta de muito tempo, que subia, descia, gritava, rosnava, batia, chorava, gozava e dormia. Foi o melhor nome que ele poderia ter encontrado para a sua jangada. A jangada velha de guerra, que agüentava qualquer mar furioso. E que lhe trazia tanta felicidade. Agora era um monte de madeira. Seus amigos não apareceram. Não havia mais âncora em Regina. Teria que deixá-la à deriva. Não a veria mais. Compraria outra jangada. Regina não seria o seu nome. Não se dá o mesmo nome para duas jangadas. Ele deveria ter morrido com ela, que o deu tanta vida. Aquela puta de muito tempo atrás talvez já tivesse morrido. Não sabia. A jangada Regina morreu naquele dia, em que ele também quase morre. Mas é assim. Adeus Regina.

 

Sobre o conto anterior...

Tema: Nada

Título: E genuflexo, desabafo

 
 

In Fine - N

Incrível é como de um dia para o outro, de uma noite a outra, tudo perde o sentido. Ou quase tudo. Ainda é possível sonhar às cinco da manhã, o sol entrando pela janela, o mesmo sonho do tempo em que tudo era ansiedade. Só que tudo agora é muito distante. Muito confuso. Chego a pensar que tudo que almejo beira o impossível. E logo eu, tão insistente que sou. Tão determinado. Penso que a culpa pode não ser minha. Tento me enganar, pois se alguém tem culpa, esse alguém sou eu. Tenho que aprender que a poesia é só um pequeno reflexo da vida. E que as coisas são reais. A realidade é algo difícil de se aceitar para um poeta. É preciso fugir do mundo, e o mundo nos persegue. Me vejo sentindo saudades de algo que não aconteceu e pode nem acontecer. Me pego fazendo planos mirabolantes que sei que jamais serão concretizados. Tenho raiva de alguém que, na verdade, nem me conhece. Amo alguém que não sei mais que o nome. Isso é a poesia. A maldita poesia. Os pés saem do chão e nunca voltam a tocá-lo. Tenho vontade de assassinar alguém. Qualquer pessoa. Tenho vontade de morrer tragicamente, só pra saber se alguém realmente se importa comigo. Passo dias de alegria contagiante à espera de algum minuto decisivo. Vivo outros dias lindos e ensolarados mergulhado na mais profunda depressão. Fumo desesperadamente e me embriago, na mais ingênua intenção de que conseguirei me expressar. Dizer o que penso às pessoas e ao mundo. E sempre acabo assim: eu, a caneta e o papel. Às vezes risos, quase sempre lágrimas. Nunca a solução. Foi como disse outro desses loucos: um urubu pousou na minha sorte. Melhor aquele, não sei se o mesmo: escarra nessa boca que te beija.

Tudo é tão lindo!!!!

 

 

Sobre o conto anterior...

Tema: Morte

Título: Prisão de Insegurança Máxima

 
 

In Fine- M

Um ladrilho vermelho e outro verde se alternam psicodelicamente. Ladrilho não, mosaico. Desses abundantes nas velhas construções. Talvez esses também sejam carregados de fantasmas. Pessoas realmente mortas e outras por demais vivas. Todas essas pessoas, mortas ou vivas, ainda pisam esses mosaicos psicodélicos e ainda hão de os pisar por muito e muito tempo. E por cima dos mosaicos repousa um teto branco tão psicodélico quanto o piso. Não tem cor, quase incolor, e tem também todas as cores. O arco-íris vibrando em alta velocidade numa superfície horizontal. Tão plano quanto uma esfera de enormes dimensões. Na verdade, mesmo, não há em mim o menor interesse em falar sobre os referidos mosaicos. Quem sabe o fato de me encontrar por debaixo deles. É uma dolorosa prisão essa na qual me encontro, mas não quero me lamentar. É muito apelativo o lamento de um preso, pois pra tudo existe um motivo. Até pra mim, que estou aqui, embaixo do lisérgico mosaico desse bar. Ainda não havia informado que se tratava de um bar. Talvez por ser esse meu maior desgosto.

Hoje o barulho aqui está terrível. Há tantas pessoas que chego a sentir dor nos meus ossos. É possível que já não existam ossos, mas a dor persiste. A vontade de estar vivo é em mim muito grande. Prometi parar com as lamentações. Estou aqui embaixo já faz algum tempo, embora não saiba dizer precisamente. Pra falar a verdade às vezes penso que estou aqui há anos, outras vezes tenho a plena certeza de que não faz nem uma semana. O fato é que não tenho uma correta noção do tempo. Não é preciso, pois não tenho mais compromissos, nem horários, nem nada. Apenas vivo aqui. Aliás, morro aqui. Morro e moro aqui. Lembro de muitas pessoas que freqüentam esse bar. Eram todos meus amigos. As lembranças são como o tempo. Tudo muito obscuro. E hoje, em particular, estou vendo muitos deles. Parece-me que estão muito felizes. Vejo homens, mulheres, crianças, velhos. Vejo todas as pessoas que sempre pisaram os mosaicos coloridos entorpecedores desse bar. O interessante é que alguns deles parecem olhar pra mim. Digo isso pois não é comum que as pessoas olhem para o chão e sorriam. Tudo bem que o mosaico colorido desperta uma certa curiosidade, mas mesmo assim acho estranho. Alguns parecem olhar dentro dos meus olhos. Cheguei a ver alguém acenando pra mim. Pode ter sido uma alucinação. É muito freqüente ter alucinações aqui. Vejo coisas estranhíssimas. No começo me assustava e procurava fechar os olhos. Mas aqui embaixo não adianta fechar os olhos. Aqui se enxerga com a mente. É possível que nem tenha mais olhos. Um dia pude ver o céu azul. Era como se não houvesse mais nada no mundo. O bar sumiu, sumiram os mosaicos coloridos, desapareceram as pessoas. Foi bom ver o céu novamente. Acho que chorei nesse dia. A sensação foi de choro, muito antiga e quase perdida. A sensação do choro de alegria. Mas vamos voltar ao atualmente. O movimento hoje está uma beleza. Posso ver a felicidade do dono, que de vez em quando passa a cabeça por cima do balcão, olha pro chão e dá uma sonoríssima gargalhada. Que eu me lembre ele nunca fez isso. Já o vi fazer muitas coisas no chão desse bar, por cima de mim, mas essa manifestação de louca alegria é a primeira vez. O fato é que parece haver algo estranho no ar. Não existe ar aqui embaixo, mas dá pra sentir a vibração. Uma vibração positiva que não sentia há tempos. Às vezes me lembro de acontecimentos do tempo em que andava por cima desses mosaicos. Lembro das pessoas me cumprimentando, dos abraços e tapinhas nas costas. Lembro dos porres em que terminávamos deitados no mosaico psicodélico com o teto branco a rodar. Lembro das brigas de bêbados sempre por causa de futebol e mulher, geralmente nessa ordem. Lembro também das comemorações de aniversários e dos dias de jogos da seleção. Mas todas essas lembranças são obscuras. Não há claridade nessas lembranças. Apenas uma coisa sei com certeza: estou aqui, por baixo desses mosaicos lisérgicos, por minha própria vontade. Foi num dia de muito movimento como esse que, num momento de quase total embriaguez, subi na mesa central do bar e bradei com toda a força da minha voz que gostaria de ser enterrado aqui, por baixo do piso. Fui arduamente aplaudido. Só não esperava que aquele ônibus cismasse de quebrar a barra da direção no mesmo dia, esmagando-nos, eu e Guiomar, minha motocicleta, contra um seboso muro de pedra. E a partir desse momento vim morar aqui, por baixo desse colorido mosaico.

Mas essas lembranças e lamentações não levam a lugar algum. Prefiro me divertir aqui no meu lugarzinho, que eu tenho plena certeza, é só meu.

As pessoas continuam chegando e já não cabem mais mesas. Os garçons correm feito loucos. O som está bem alto e o barulho das conversas transforma o lugar em uma verdadeira feira. Mais amigos meus continuam chegando. Infelizmente não consigo lembrar os nomes. Até as fisionomias de vez em quando se confundem. Então, do nada, o som pára e as conversas também. Tudo fica em silêncio absoluto quebrado apenas por um som de passos. São passos de uma mulher que vem chegando e junto com ela um calafrio que percorre todo o meu corpo. Não posso acreditar no que vejo. Sei que há lágrimas nos meus olhos, e através dessas lágrimas vejo aquela que foi minha mulher enquanto tinha vida. Jamais esqueceria seu sorriso, sua pele morena e suas pernas grossas. Ela está rindo pra mim. Ela e todo o bar, todos os meus amigos. Com um golpe certeiro de uma grande picareta ela acerta o centro do mosaico verde que se encontra exatamente sobre o meu rosto. Depois do primeiro golpe muitos outros se sucedem. Todas as pessoas que lá estavam puderam ajudar no meu desenterro. Creio que em minutos estava já sentado ao balcão do bar que eu tanto amava, sob gritos de alegria e exaltação. Sentia muito frio, mas estava contente. Pude me ver no espelho que há no final do corredor. Naturalmente estava horrendo, mas meus cabelos continuavam compridos e elegantes. Vi também pelo espelho minha ex-mulher indo embora com um rapaz, que possivelmente seria seu namorado. Voltei a sentir frio, mas estava muito feliz.

Fazia um ano que havia sido enterrado lá. Debaixo dos mosaicos psicodélicos passei trezentos e sessenta e cinco dias. Iria passar toda a eternidade.

A única coisa que me chateava era não ter provado do bolo.

 

Sobre o conto anterior...

Tema: Limbo

Título: O Outro Espelho

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